A agonia de Bia




“Não é fácil ter como pior inimigo você mesmo, e Bia sabia exatamente disso. A agonia de se olhar no espelho a seguia como uma sombra, que a fazia ansiar pelo seu próprio reflexo, e se arrepender amargamente disso momentos depois. A sombra fazia a menina ver suas falhas nos mínimos detalhes, as cicatrizes, os restos de sangue seco. Tudo resultado das próprias mãos de Bia, quando os tentáculos da sombra ensinavam todo dia um novo jeito da menina se machucar. A menina não gosta de se machucar, ela odeia.

Mas Bia tem que lutar. De manhã cedo, pela primeira vez, ela se levanta e não se olha no espelho. Vai direto para baixo do chuveiro e lava o cabelo, mesmo não se lembrando se tinha lavado ontem. Não importa, hoje tem que ser diferente. Ela lava o rosto com a água cheia de shampoo que escorre de cima, fecha os olhos e sente sua pele com os dedos. A pele um pouco áspera nas bochechas fazem o coração da menina doer um pouco, mas ela também se lembra pelo quanto que já passou. E foi bom, ela fez um ótimo trabalho. Termina de secar o cabelo e olha seu corpo no espelho, não o rosto. Mas tanto faz o corpo, ele é o menor dos problemas, que pode ser resolvido com dietas ou algum exercício. Mas Bia mas não se preocupa, ela está satisfeita. Seu olhar vai até o pescoço, e quando sobe um pouco mais ela tampa a visão jogando a toalha por cima dos olhos. Certo Bia, esse não foi seu melhor movimento. Você tem que aceitar, não evitar.

O cabelo curto não dá trabalho, ela penteia cuidadosamente o liso que se torna ondulado se secar naturalmente. Será que faço franja? Ia mudar minha situação. Ela já fez franja antes, mas mais do que estética, foi para esconder a situação, pelo menos a parte de cima. Esse não é o objetivo, não é o foco. Bia está decidida a não se esconder mais, atrás de cabelo ou maquiagem. Bia tem que se aceitar, e não vai esconder nenhuma parte de si mais. Cancela a franja.

Após o banho tomado e o cabelo secado, ela acessa as redes sociais. Os vídeos de cachorrinhos e memes a divertem bastante, ela compartilha a música que mais está ouvindo no momento. Vai no whatsapp, entra na conversa do grupo. São todos uns amores, que a fazem esquecer dos problemas um pouco. Ah, mas eles não fazem ideia do que a Bia passa. Vai no Instagram, nossa que foto bonita a menina postou. Ela clica no explorar, mesmo sabendo que não vai fazer bem pra ela. As meninas do Instagram são tão bonitas, como elas conseguem? Que cabelo, que corpo, que rosto. Por quê não nasci assim? Chega Bia, isso é errado. Você é linda do jeito que é. Sou?

Bia sabe que tem que pôr em prática. Pode não ser o melhor momento, é inevitável, ela vai se comparar com as outras meninas. Mas tem um pouco de confiança saindo não sabe de onde, mas é de si. Ela deixa o celular na cama, o corpo está bom e o cabelo também. É só uma pequena parte que a incomoda, e ela não quer que incomode mais. A partir de hoje, eu vou me amar, ela pensa. Pois meus pais me amam do jeito que eu sou, e minhas companhias também. Não é difícil, não é para ser difícil. Ela sente seu estômago embrulhar conforme se aproxima do espelho, e a respiração acelerar. A barriga dói, mesmo estando em jejum.

Ela se olha no espelho, os olhos fitando os olhos. Ela sorri, e depois chora.”

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